O futuro dos mapas digitais
Transformar o aplicativo de mapas em um serviço tão bom quanto o criado pelo Google não será uma tarefa simples para a Apple.
O drama vivido pela empresa criada por Steve Jobs ainda vai continuar por muito tempo, na opinião de Mike Goodchild, professor emérito de geografia da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos.
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| Serviço do Google está muito à frente dos concorrentes. |
Poucas pessoas no mundo têm tanto conhecimento no assunto. Goodchild foi um dos primeiros a terem a ideia de transportar dados geográficos para o mundo digital, o que tornou possível a popularização desse conhecimento em escala mundial. Por isso, ele é visto por muitos como pai do Sistema de Informação Geográfica, ou GIS, na sigla em inglês. O pioneirismo lhe rendeu, em 2007, o Prêmio Vautrin Lud, considerado como o Nobel da Geografia.
O professor conta que, quando os mapas digitais surgiram, foi difícil perceber o quanto poderiam ser revolucionários. “Os mapas de papel são estáticos, mas os digitais são dinâmicos e conseguem representar o mundo como ele é hoje”, disse a INFO. “Demorou para que notássemos esse potencial, mas foi assim com várias coisas na História. Veja, por exemplo, a invenção do automóvel. Inicialmente, era a substituição de uma carruagem e ainda usamos termos baseados nisso para descrevê-lo. Levou muito tempo para que as pessoas vissem que era muito mais do que isso.”
Na entrevista a seguir, ele fala sobre os obstáculos que empresas como Apple, Google, Nokia e TomTom e serviços livres, como o OpenStreetMap, enfrentam para ajudar você a se localizar no mundo.
Por que a Apple teve tanta dificuldade para criar um aplicativo de mapas? Acho que o problema da Apple foi o seu mecanismo de controle de qualidade. Eles se precipitaram em anunciar o serviço, que está em grande parte baseado em São Francisco, e provocaram muito entusiasmo antes do lançamento. Se olharmos para o passado, o mesmo era válido para o Google.
Há uns dez anos, os mapas do Google estavam muito crus. Ao longo do tempo, foram melhorados e tiveram sua cobertura ampliada internacionalmente. Se a Apple tivesse começado a competir com o Google naquela época, não teria tido os problemas de agora. Eles estão sendo comparados com um competidor muito mais maduro.
Mas a Apple tomou a decisão certa de produzir seu software de localização? Acho que não foi uma boa ideia. É basicamente uma duplicação do que já existe e não consigo ver a vantagem de se termos dois grandes programas de mapas. Isso é ótimo para empregar estudantes e para a indústria de mapas. Mas não foi uma boa decisão estratégica. Por outro lado, o Google tem competido com a Apple e, com isso, é difícil as duas empresas colaborarem. Posso entender a decisão deles, mas apresentaram um produto prematuro, que não foi desenvolvido da maneira correta.
Vai demorar para que o aplicativo passe a funcionar direito? Sim, vai demorar bastante para que se torne tão confiável como os seus concorrentes. Infelizmente isso vai exigir muito trabalho e custará bem caro.
Hoje temos apenas três empresas que concentram os mapas digitais de todo o mundo: TomTom, Nokia e Google. Isso não é ruim? Essa concentração é de certa forma ilusória, porque essas companhias dependem de vários fornecedores de dados. Por outro lado, fazer mapas mundiais é problemático porque há muitos tipos de cultura. As empresas, para serem bem-sucedidas, precisam de operações locais que as ajude a lidar com essas diferenças.
Criar um mapa de Mumbai é muito diferente de fazer o de Nova York. A não ser que tenha funcionários em Mumbai, nenhuma empresa vai conseguir produzir algo decente. Se você olhar a cobertura do Google na Argélia, não vai conseguir muita informação útil. Isso porque os procedimentos adotados para fazer esses mapas foram criados na Califórnia e, por isso, não são adequados às condições locais. E isso vale para qualquer lugar. A propriedade dos dados utilizados é outro complicador, porque muitas colaborações são feitas por voluntários. Vários deles não têm ideia de que isso está sendo usado comercialmente pelo Google, por exemplo.
O que você acha de iniciativas livres, como o OpenStreetMap? Acho sensacionais. Há muitas coisas boas sendo feitas, que mobilizam pessoas que no passado nunca tiveram qualquer interesse nesse assunto. Há só um problema que Apple, Google e OpenStreetMap compartilham, que é a produção de mapas da mesma forma para todo o mundo. Isso não leva em consideração diferenças culturais. O OpenStreetMap é infelizmente dominado por ingleses e por visões de mundo da Califórnia e da Europa Ocidental. Por isso, o resultado não é muito bom em outras áreas da Terra que têm culturas diferentes e pessoas interessadas em outras coisas. O sistema de tags é desenhado para funcionar no planeta inteiro, mas não dá certo.
Como os mapas digitais devem evoluir? Vamos cada vez mais nos acostumar com a ideia de que os mapas têm de funcionar em tempo real. Eles vão ser muito mais detalhados. E também haverá muitos mapas do interior de lugares, como shopping centers, hospitais e outros espaços. Tudo isso vai abrir novos potenciais.
Você acha que será possível mapear o mundo todo algum dia? Não. Acho que a tendência é termos uma colcha de retalhos, com diferentes escalas para áreas distintas. Ter tudo em uma mesma escala não faz sentido, porque não precisamos de mapas assim para todo o planeta. Para uma grande área urbana, como São Paulo ou Nova York, é importante ter mapas que cheguem ao nível dos prédios e que tenham resolução de centímetros.
Mas não precisamos de mapas similares do Deserto de Mojave ou da Bacia Amazônica. No passado, como eram feitos por governos, era definido um mesmo tamanho para tudo. Os mapas comerciais mudaram isso e abriram espaço para escalas variáveis, que é o que precisamos.
Por que é tão difícil fazer um bom mapa? Porque é uma representação do mundo, que deve ter o maior número possível de usos. Não há só um mapa, mas muitos. É necessário acomodar diferentes pontos de vista. Vemos incidentes internacionais em que dois países entram em conflito por conta de diferentes representações. É por isso que os mapas digitais têm tanto potencial. Pode haver um mapa para os indianos, outro para os ingleses e outro para os americanos.
O que você acha da qualidade dos mapas disponíveis hoje? Está melhorando progressivamente. A ideia de que há um mapa perfeito é enganosa, porque isso não existe. É impossível conseguir isso, porque todo mapa traz um grau de incerteza. Muito poucas pessoas compreendem que várias partes do mundo estão se movendo continuamente. O que acontece com os mapas da Austrália quando sabemos que é um continente que se desloca 7 centímetros por ano?
Estamos migrando para uma sociedade cada vez mais dependente de mapas digitais? Acho que sim. O uso de navegadores GPS e de mapas nos smartphones têm tornado as pessoas dependentes e menos capazes de encontrar o caminho usando o cérebro e a memória. Algumas pessoas lutam contra isso. Eu luto. Tento manter um bom mapa mental mesmo quando estou usando tecnologia para achar uma rota. Mas muitas pessoas ficam perdidas se você tirar o GPS delas. Usar mapas digitais deveria melhorar o nosso conhecimento geográfico. Para alguns, isso é verdade. Mas frequentemente a tecnologia tem reduzido esse conhecimento. Converso com pessoas que dizem: “Desde que comecei a usar o GPS, esqueci onde ficam os lugares e não sei mais me localizar sem essa tecnologia”. Isso é péssimo.
Fonte: Revista Info. Disponível em: http://info.abril.com.br/noticias/extras/apple-vai-demorar-para-consertar-mapas-diz-especialista-31102012-52.shl. Acesso em: 12 nov 2012.
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