Introdução
Há divergências sobre o assunto, adianto. Essa é uma tentativa de explicação do fim da dívida externa do Brasil. Valores e determinadas situações podem variar um pouco.
O governo Lula iniciou-se em 2003 e terminou em 2010, com uma reeleição em 2006. Governo neoliberal sim, como seus antecessores: Fernando Henrique, Itamar Franco e Fernando Collor. Mas depois do governo do PT algo realmente havia mudado no Brasil: o país deixou de ser devedor do FMI e passou a ser credor. Alguns dizem mesmo que a dívida externa brasileira foi quitada: um mito que deve ser explicado.
A dívida externa brasileira ainda exite, é um fato. Mas virtualmente ela foi eliminada. Isso porque o país tem reservas internacionais que superam o valor da dívida. E essas reservas estão aplicadas no exterior, rendendo juros que trazem uma situação confortável para o governo brasileiro. Assim o mercado internacional confia na capacidade de pagamento do Brasil.
O Longo Caminho
Historicamente a dívida externa do Brasil remonta à Independência de Portugal, quando Dom Pedro I pediu empréstimo à Inglaterra para pagamento de indenização aos portugueses. Desde então a dívida oscilou para cima, chegando a números altíssimos após o governo JK - sim, como construir Brasília sem dinheiro?
Nos governos militares a dívida aumentou muito também: obras faraônicas - Itaipu e Transamazônica, como exemplos, precisavam de muito dinheiro. Nos anos 80, a década perdida, ocorre declaração de moratória - paramos de pagar porque o caixa estava quebrado. Superinflação interna e descrédito externo. E dívida aumentando. Os anos 90 iniciaram-se com o governo Collor confiscando poupanças na tentativa de estabilizar a economia. Só gerou pânico e prejuízos aos brasileiros, que o retiraram por impeachment após denúncias de corrupção. Seu vice assume, Itamar Franco, que coloca o Plano Real para funcionar com ajuda de seu ministro da fazenda, FHC, que se elege presidente às custas da bandeira da estabilidade.
Há uma abertura do mercado doméstico a produtos estrangeiros. As contas são organizadas, com ajuda externa, em especial do EUA. É lógico pensar que essa ajuda era mutuamente benéfica: "eu te ajudo para você se recuperar e começar a me pagar".
O Governo Lula
A estabilidade econômica não trouxe a solução do problema da dívida externa. Pelo contrário, ela só aumentava. Crises internacionais aumentavam o problema: causavam a necessidade de se recorrer a empréstimos do FMI para pagar os compromissos. Diante das crises a fuga de investimentos era inevitável. Como pagar dívidas se não existe dinheiro investido aqui?
Lula é eleito afirmando antes da eleição que iria honrar todos os compromissos. A desconfiança internacional era a de que se o PT assumisse a presidência iria parar de pagar a dívida externa, coisa que o partido já defendeu na década de 90. Quase custou a quebra do Real.
Durante seu mandato, porém, Lula manteve seu governo neoliberal, pagando os juros da dívida, mantendo o superávit primário - economia para pagar os juros, diminuindo investimentos principalmente em infraestrutura. O presidente, então, deu o aval para que seu presidente do Banco Central, Henrique Meireles - o mesmo presidente do BC de FHC - colocasse em prática seu plano.
A Mudança de Paradigma
Favorecido por relativa ausência de crises internacionais no período 2003-2006, o Brasil passou a crescer consideravelmente suas exportações, gerando saldos positivos na balança comercial: importava menos que exportava. As reservas foram aumentando gradativamente desde 2003, junto com a dívida externa, que estava perto de R$400 bilhões.
O plano de Henrique Meireles: pagar os juros da dívida antecipadamente de 2006 a 2012. Calculou-se quanto o Brasil iria dever de juros neste período, e o governo adiantou o pagamento ao FMI. Essa ação desafogou as contas do país por um bom tempo: a dívida ficou congelada. Por outro lado as reservas internacionais continuavam a aumentar.
Com dinheiro sobrando, a jogada de mestre foi o governo começar a emprestar dinheiro das reservas internacionais ao FMI, para que ele emprestasse a países em crise, recebendo por isso juros. R$10 bilhões aqui, R$30 bilhões ali, e durante o período acima citado o Brasil foi emprestando e tendo direito a juros.
Sem se prender muito a valores exatos, o Brasil hoje deve, em 2012, algo próximo dos R$600 bilhões. E como reservas internacionais tem algo próximo de R$700 bilhões. O compromisso atual é o de acompanhar o valor da dívida e das reservas, já que ambas crescem. Isso foi o que o governo petista fez: decretou o fim da dívida, virtualmente falando.
Dívida Interna e Efeitos Colaterais
Representa, grosso modo, as dívidas que as esferas de governo têm umas com as outras e com bancos e outros organismos internos. O governo federal deve muito aos governos estaduais e municipais. Dinheiro de impostos que não são repassados aos Estados e Municípios, que também têm dívidas com a esfera federal. A dívida interna cresceu muito no governo Lula, representando sucateamento de serviços públicos: estradas, portos, hospitais, educação, etc. O dinheiro foi, também, emprestado ao FMI para que service ao aumento das reservas internacionais, para ajudar a "quitar" a dívida externa.
A ideia foi a de privatizar estradas, ferrovias e outras estruturas estatais, sob o disfarce de concessões, para aliviar a responsabilidade do governo em algumas áreas, fazendo o contribuinte arcar com tais estruturas. Um aumento de impostos disfarçado.
Táticas neoliberais que funcionaram, por um lado, mas que mantêm o drama de o Brasil ser uma Escandináfrica: um país escandinavo para arrecadação de impostos, um país africano para oferecer serviços públicos de qualidade. O próximo desafio a ser superado.
Alan Martins.
Geógrafo.