Preferência da preferência

Grávida tem preferência?
A gravidez dura nove meses. Mas, nos transportes públicos – pelo menos nos de São Paulo – ela tem, no máximo, quatro. No ônibus, no trem ou no metrô, uma mulher só é de fato considerada grávida quando a barriga “fala por si”. Não é o meu caso. Às vésperas de completar cinco meses, minha barriga ainda não é preferencial. Posso estar de vestido ou roupa de ginástica. Não importa o look do dia, ainda não sou vista como alguém que, ao entrar no ônibus ou no metrô, tem direito ao assento reservado. E isso, acreditem, não é “mimimi de grávida”.
Por enquanto, não sentar durante os trajetos não tem sido um grande problema. Como a barriga ainda não pesa e ainda há disposição, ficar em pé no ônibus ou no metrô não me causa mal algum. Mas, admito, me causa irritação. Por precaução, carrego para cima e para baixo o tal do “cartão da gestante”. Algumas pessoas – leia-se o médico e minha mãe – já me aconselharam a usá-lo para “garantir os meus direitos”. E a coragem de dar a “carteirada”? ...CONTINUA ABAIXO


Não à toa, desde que descobri a gravidez, comecei a observar a dinâmica dos assentos preferenciais. E, quase diariamente, algumas cenas chamam atenção. Semana passada, linha Azul do metrô sentido Jabaquara. Vagão abarrotado. Ao meu lado, na plataforma, uma mãe com uma criança de colo. Depois dos tradicionais “empurra-empurra e salve-se quem puder” para entrar no trem, um rapaz vê a mulher tentando se equilibrar e, imediatamente, vira-se para o assento preferencial – onde estão duas mulheres (uma de 30 e poucos anos, outra de 70 e poucos) – e pede que a mais jovem ceda o lugar. “Estou grávida”, ela responde. Ele desconfia, tenta enxergar a barriga, comenta com o colega ao lado e faz cara de quem não acreditou…
Minutos depois, com o vagão mais vazio, ela me diz que passa por isso diariamente. “Ninguém acredita que estou grávida. Acham que estou gordinha”, ri de si mesma, contando estar grávida de quase seis meses da Gabriela.
Quando ela desembarcou, voltei à inquietação que já havia me incomodado em outras situações – na fila do supermercado, no posto de saúde, no aeroporto: qual é a preferência da preferência? Fiquei pensando que muito provavelmente, eu teria levantado para a mãe com a sua criança de colo. Não porque me considere “menos preferencial”, mas porque ainda estou na fase de achar que pessoas com criança de colo, portadores de deficiência e idosos ainda são a preferência da preferência. Pelo menos por enquanto.
Fonte: Portal Estadão. Disponível em: http://blogs.estadao.com.br/apenas-gravida/gravida-tem-preferencia/. Acesso em 26 Mar 2014.

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