A produção de gás e petróleo de xisto pelo fracking, ou fratura hidráulica, foi recebida nos Estados Unidos, na Argentina e em alguns países europeus e asiáticos como uma panaceia contra o esgotamento das reservas de petróleo, a dependência das importações de energia e até o efeito estufa. Para muitos ambientalistas, porém, é uma catástrofe ecológica, o encerramento mais desastroso que se poderia imaginar para a era dos combustíveis fósseis. Talvez seja também uma ilusão, uma bolha especulativa destinada a estourar.
Trata-se de uma técnica para aproveitar gás ou petróleo de camadas de xisto, rocha impermeável à produção convencional.
Perfura-se um poço que na parte final é horizontal e por ele se injeta um fluido que amplia as fraturas do substrato rochoso para abrir caminho aos hidrocarbonetos nele encerrados. Usa-se geralmente uma mistura de água, areia e produtos químicos, trazida por caminhões-cisternas. A função dos grãos de areia é manter as rachaduras abertas e a dos aditivos inclui aumentar a viscosidade do líquido para transportar esses grãos com mais eficiência, reduzir a fricção e prevenir a corrosão e a multiplicação de bactérias. É como espremer o bagaço de um planeta que já deu suco.
Perfura-se um poço que na parte final é horizontal e por ele se injeta um fluido que amplia as fraturas do substrato rochoso para abrir caminho aos hidrocarbonetos nele encerrados. Usa-se geralmente uma mistura de água, areia e produtos químicos, trazida por caminhões-cisternas. A função dos grãos de areia é manter as rachaduras abertas e a dos aditivos inclui aumentar a viscosidade do líquido para transportar esses grãos com mais eficiência, reduzir a fricção e prevenir a corrosão e a multiplicação de bactérias. É como espremer o bagaço de um planeta que já deu suco.
O processo foi inventado em 1947 e usado comercialmente pela primeira vez em 1949, mas na maioria dos casos o procedimento só é lucrativo quando o petróleo está acima dos 70 dólares por barril. [...]
[...] Ao mesmo tempo, os defensores dofracking dizem ter contribuído para reduzir o efeito estufa, ao permitir a substituição de algumas termoelétricas a carvão por outras a gás, que emitem menos dióxido de carbono por megawatt-hora.
Desse ponto de vista, a exploração do gás de xisto parece um sucesso. Mas a que preço? Do ponto de vista ambiental, não sai de graça. Cada poço suporta, em média, 18 extrações, cada uma das quais requer de 4 mil a 30 mil metros cúbicos de água. É uma quantidade muito significativa, quando multiplicada pelo meio milhão de poços abertos nos EUA. Em áreas de reservas de água superexploradas, principalmente onde a mudança climática se combina com consumo excessivo, essa pode ser a gota que esvazia o copo. No Texas, 15 milhões vivem sob racionamento e 30 comunidades ficarão totalmente sem água até o fim de 2013, devido ao bombeamento de poços para abastecer a indústria petroleira. Fazendas de gado desapareceram, pomares morreram por falta de água para irrigá-los.
Mesmo onde a água não escasseia, ela pode ser contaminada. Os poços são normalmente revestidos de aço e cimento para evitar vazamentos, mas mesmo assim o subsolo é em muitos casos contaminado pelo gás e pelos aditivos. Isso torna a água inutilizável e inviabiliza a agropecuária na superfície. Além de liberar metano, um poderoso gás de efeito estufa. Em Dimock, na Pensilvânia, a água da torneira, impregnada de metano, pegava fogo, um poço de água explodiu e vários moradores tiveram problemas de saúde. Uma dessas famílias fez com a empresa responsável, a Range Resources, um acordo judicial pelo qual recebeu uma indenização de 750 mil dólares, mas foi proibida de falar sobre exploração de xisto pelo resto da vida, inclusive os filhos do casal, de 9 e 7 anos de idade.
Durante algum tempo, as famílias afetadas foram abastecidas por uma das empresas com água engarrafada, mas, no fim de 2011, o fornecimento foi interrompido e a Agência de Proteção Ambiental foi chamada a intervir. Constatou a contaminação da água da região com arsênico e impôs uma moratória na atividade do estado. O cinema abordou o problema no documentárioGasland, de Josh Fox (2010), e no drama Terra Prometida (Promised Land), de Gus Van Sant (2012).
Outra possível consequência negativa da exploração são os tremores de terra. Na Inglaterra, um tremor de 2,3 graus na escala Richter, produzido por um poço exploratório, levou a outra moratória no uso da técnica em 2011. No Canadá, ocorreu um tremor de 3,8 graus pelo mesmo motivo, no mesmo ano. São tremores relativamente pequenos, mas em grau um pouco superior poderiam produzir sérios danos em regiões onde as construções não previram risco sísmico.
[...]
Na Argentina, dona da segunda maior reserva de gás de xisto do mundo (depois da China), 67 vezes maior que o que resta de gás convencional, o fracking promete recuperar a produção em queda da reestatizada YPF e restaurar a autossuficiência nacional em hidrocarbonetos, vital para um país com déficit crônico de divisas. [...]
Outra questão: por quanto tempo a festa vai durar? A experiência é curta, mas, no início de 2012, geólogos começaram a alertar que a confiabilidade e a durabilidade das jazidas ficam aquém do esperado. O rendimento dos poços cai de 60% a 90% após um ano de exploração, enquanto a produção convencional cai 50% em dois anos e pode ser bombeada por mais de 20 anos. Além disso, os novos poços tendem a ser menos produtivos que os primeiros. Em oposição às previsões do setor, a Global Sustainability estimou que os EUA terão de perfurar 6 mil poços anuais, a um custo de 35 bilhões de dólares, para manter a produção, que mesmo assim atingirá o teto em 2017 e cairá rapidamente. Nesse caso, o fracking será uma ilusão dispendiosa, adiará investimentos indispensáveis em energia sustentável e deixará atrás de si apenas uma terra arrasada, no sentido tanto financeiro quanto literal.
Fonte: Portal Carta Capital. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/revista/775/o-bagaco-da-terra-3728.html/view. Acesso em: 13 fev 2014. Adaptado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário